Em março de 2007, Maria Cristina
Hartmann, 49 anos e Priscila Forone, 31, percorreram 710 km de bicicleta
pela patagônia Chilena e Argentina em 19 dias. Mais do que
quilômetros percorridos, muitas histórias foram aprendidas
durante o percurso.
Férias: uma oportunidade de, por determinado
período de tempo, viver uma outra realidade. E desta vez,
resolvemos ver “que passa” em um pedaço da Patagônia
Chilena e Argentina. De bicicleta, com um roteiro básico
marcado no mapa, percorremos aproximadamente 700km sem planejarmos
com muita antecedência onde passaríamos a noite ou
onde pararíamos, sem determinar quantos quilômetros
deveríamos vencer por dia, deixando os lugares e pessoas
nos guiarem pela nossa rota.
Saímos de Bariloche, cada bicicleta pesando aproximadamente
45kg. Os primeiros quilômetros foram de adaptação,
tempo bom, estrada boa. Logo depois de saírmos da cidade
entramos no Parque Nacional Nahuel Huapi e pegamos a rota 215. O
primeiro trecho foi de estepe patagônica, formação
vegetal de planície sem árvores e como esperávamos,
com muito vento. Muito vento mesmo. Andávamos a 6km por hora,
pedalando pesadíssimo. Ciquenta quilômetros pedalados
quando resolvemos parar, não só pelo cansaço,
mas também por questão de segurança. Pedalávamos
pelo acostamento com vento contra muito forte, quando os caminhões
passavam por nós cortavam a corrente de vento, o que nos
jogava para dentro ou para fora da pista. Tenso. No Meio da estepe,
a únca coisa que avistávamos era um barraco perto
de umas máquinas de mineração de pedras próximo
ao asfalto. Resolvemos parar e ver se conseguíamos montar
acampamento próximo ao barracão. Primeiro presente
da viagem: Conhecemos um senhor, Sando, que mora sozinho há
18 anos neste lugar. Caçador,trabalhador da mineiradora de
pedras, amante da natureza. Pois é, contraditório,
mas esse homem de mãos grossas e hábitos rudes cultiva
muitas plantas e flores dentro de casa, cuida de 2 filhotes de gatos
e pintinhos, com lâmpada para aquecê-los. Ao anoitecer,
nos levou de pick-up para avistar os cervos nos campos da propriedade.
Com binóculos, observamos manadas desses animais correndo,
e no caminho de volta, um casal atravessou a frente do veículo,
o macho com suas galhadas, e muito rápido, desapareceram
na estepe escura. Voltamos para o barracão e o nosso anfitrião
nos levou ao que seria nosso primeiro quarto: um depósito
com camas, louças de banheiro e esqueletos de cervos. Pelo
menos era aquecido e protegido de vento.
Situações como essa se repetiram várias vezes
durante a viagem, a hospitalidade do povo chileno e argentino permitiu
que passássemos muitas noites em casa de moradores locais,
vivendo um pedacinho de suas rotinas em troca de conversas e histórias
de como é estar pedalando e de onde viemos ou para onde iríamos.
Muitos nos perguntavam se não era perigoso, duas mulheres
sozinhas andando de bicicleta. Durante todo o trajeto, não
tivemos problema algum, muito pelo contrário só boas
vindas.
No dia seguinte seguimos em direção a Villa la Angostura.
O trajeto todo foi feito dentro do Parque Nahuel Huapi, seguindo
o lago com o mesmo nome durante boa parte do caminho.
Muitas vezes ficamos felizes por estarmos viajando com uma bicicleta
como meio de transporte, aproveitado cada momento dessa paisagem
maravilhosa, sem pressa e sem a correria dos ônibus de turismo
que encontramos ao longo da estrada. Parávamos para almoçar
nas praias de pedras e troncos e nos arriscávamos a um banho
rápido nas águas geladas dos lagos. No final da tarde,
começávamos a procurar um lugar para montar a barraca
e geralmente conseguíamos mais do que isso. Em uma situação,
próximo a San Martin de los Andes, pedimos para montar a
barraca em uma fazenda, em território Mapuche. Fomos muito
bem recebidas por uma família descendente dos nativos locais
e para nossa surpresa, depois de tomarmos mate com açúcar
e trocarmos histórias, nos convidaram a dormir em um quarto
preparado com muito carinho, até mesmo com incenso! No dia
seguinte a filha mais nova do casal que nos abrigou, nos levou para
uma caminhada para conhecer um rio que passava próximo á
fazenda e colheu o caule de uma planta chamada Nalca, e nos deu
para experimentar. Uma experiência riquíssima que dificilmente
experimentaríamos viajando de outra maneira.
Saindo de San Martin de los Andes já havíamos pedalado
aproximadamente 240 km, tanto em estrada de asfalto quanto em rípio
(estrada de chão, geralmente com pedras soltas). Estávamos
chegando na fronteira com o Chile e sabíamos que haveria
uma grande subida , pois deveríamos atravessar a cordilheira
pelo Passo Huahum. Ninguém disse que seria fácil,
mas atravessamos o passo sem muitos problemas, pois durante o caminho
havia rios que cruzavam a estrada de chão e pudemos nos refrescar
várias vezes. A poeira e o calor eram intensos.
Depois de cruzarmos a fronteira, atravessamos o lago Pirihueico,
de bote inflável, de carona com uns trabalhadores de corte
de madeira, pois a balsa que geralmente faz o trajeto estava quebrada.
Acampamos do outro lado do lago, com um céu estrelado maravilhoso.
Já no Chile, pedalamos em direção ao Vulcão
Villarrica, que no final do primeiro dia depois da fronteira enxergávamos
por todo o percurso. Passamos por Coñaripe, Lican Ray, onde
pudemos tomar banho de lago e chegamos a Villarrica. Da beira do
Lago Villarrica avistamos pela primeira vez o vulcão por
completo. Impressionante. Ainda ativo, ele fica expelindo fumaça
pela sua cratera. Hipnotizadas, decidimos que subiríamos
até o cume. No dia seguinte fomos até Pucon e arranjamos
tudo para caminhar até a cratera. É bom mudar um pouco
de exercício, a pedalada pela caminhada. O vulcão
Villarrica possui 2.840 m de altitude, e nessa época do ano,
metade da caminhada é feita sobre o gelo e metade sobre pedras
e terra fofa. Saímos cedo e levamos aproximadamente 5 horas
até o cume. Infelizmente pegamos uma cerração
muito forte próxima a cratera, mas ainda assim nos impressionamos
com o barulho da lava e o forte cheiro de enxofre que subia do interior
da terra.
O nosso circuito nos levou de volta em direção á
Argentina, pedalando por campos e fazendas onde podíamos
comer frutas na beira da estrada, muitos pêssegos e amoras.
Logo avistamos o Vulcão Lanin, que embora não esteja
ativo impressiona pela sua altura: 3.717m. Acampamos em Tromén,
aos pés do vulcão. Foi a noite mais fria de toda viagem,
á noite fizemos uma fogueira, assamos pinhão e tomamos
vinho chileno em companhia de um casal holandês que também
percorria a patagônia de bicicleta. Voltamos à Argentina
através do Paso Mamuil Malal e seguimos em direção
a Junin de Los Andes. Este foi o melhor trecho de pedalada, asfalto
novo, lisinho, sem vento algum, rendemos 70 km, foi ótimo.
Chegando em Junin de los Andes conhecemos no supermercado uma senhora
que prontamente nos ofereceu espaço para acamparmos no seu
quintal. Muitas histórias e mates depois, nos ofereceu um
banho quente, de banheira, e nos convidou para dormirmos dentro
de casa, no dia seguinte, com muita festa nos despedimos depois
de almoçarmos um maravilhoso assado!
Seguimos para San Martin de los Andes, fechando assim nosso circuito.
Voltamos para Bariloche de “coletivo” para aproveitar
mais um dia e fazer Circuito Chico, um trajeto de 40 km nos arredores
da cidade. A cada viagem de bicicleta mais me convenço que
este é um dos melhores meios de se conhecer um novo lugar.
Em 19 dias de pedal pela Patagônia argentina e chilena sentimos
de perto a hospitalidade desses povos, a curiosidade e vontade de
trocar experiências, principalmente nas cidades e povoados
menores e mais afastados.
Foram 20 dias de viagem, com um total de 717 km percorridos, 02
países visitados, 01 dia de chuva, 01 pneu furado e 01 bagageiro
quebrado. Melhor impossível. As bicicletas foram adquiridas
e preparadas para a viagem na Jamur Bikes.
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