"Percorrer com caiaques oceânicos o trecho
do litoral Paranaguá - Santos para realizar um documentário
fotográfico ambiental significa uma oportunidade única
de registrar um ambiente natural ainda virgem, alcançar
e registrar lugares de dificílimo acesso, que são
os meandros dos mangues, estuários e restingas, além
das diversas comunidades litorâneas geograficamente isoladas".
O projeto
Depois que começamos apraticar a canoagem oceânica,
há mais ou menosdois anos, foi surgindo naturalmente a
idéia de fazermos uma grande travessia. Inicialmente planejávamos
fazer uma viagem de 70 milhas para o norte, saindo de Paranaguá
e seguindo até Cananéia, no litoral do Vale do Ribeira,
em São Paulo. Cogitamos então a hipótese
de prolongarmos o trajeto até a Juréia. Uma belíssima
estação ecológica situada ao sul da Baixada
Santista, o que tornaria a aventura bem mais ousada, pois além
de praticamente duplicar a distância a ser remada (135 milhas),
um bom trecho teria que ser percorrido por mar aberto. Essa conversa
foi parar nos ouvidos do pessoal da Injebio, empresa do Curso
de Biologia da Universidade Federal do Paraná, que convocou
uma reunião conosco. Aí nasceu o Projeto Caiman.
O trajeto seria não mais até a Juréia, mas
até Santos, totalizando 210 milhas. A Injebio iria nos
ajudar a conseguir patrocínio, além do apoio da
FUNPAR e do Setor de Ciências Biológicas da UFPR.
Priscila Forone, a fotógrafa da equipe, iria produzir um
documentário fotográfico da aventura, que seria
depois exposto nos campus da Universidade, além de shoppings,
etc. Além disso, colheríamos informações
de cunho ambiental e faríamos um diário de bordo
que, juntamente com as fotos, num pós-projeto, se reuniriam
num livro e, talvez, num CD-ROM sobre a viagem. Seria um belo
projeto que, além de divulgar a canoagem oceânica,
esporte ainda novo no Brasil, estaria em consonância com
outros projetos ecológicos desenvolvidos na região,
como o Projeto Chauá, o Projeto Lagamar, o Projeto Jaguar
e os esforços do S.O.S. Mata Atlântica e do Ibama.
Os preparativos
Nos meses que antecederam a viagem, nos dedicamos aos preparativos.
Como a maior parte do trajeto se daria por regiões desabitadas,
nós levaríamos, além do material para acampamento
e do equipamento fotográfico, um bem montado estojo de
primeiros socorros, equipamentos de navegação e
mergulho, kits de sobrevivência, sinalizadores, coletes
salva-vidas, remos reservas, material para fazer eventuais reparos
nos caiaques, etc.
Também levaríamos provisões para trinta
dias de viagem. Os nossos caiaques oceânicos, diferentes
dos caiaques convencionais, têm 6,10 m de comprimento e
são projetados especialmente para grandes expedições.
Deste modo, eles têm dois grandes compartimentos estanques
no interior de seu casco, na proa e na popa, onde toda a bagagem
seria acomodada. Fizemos então cursos de navegação,
primeiros-socorros, salvamento e um decisivo trabalho direcionado
de condicionamento físico na All Sport, um de nossos patrocinadores.
Mangues, baías e canais
No dia 30 de janeiro de 2000, uma multidão composta por
parentes, amigos, patrocinadores e curiosos amontoava-se no pier
do Iate Clube de Paranaguá, o local escolhido para a nossa
partida. Os caiaques carregados, pesando em média 200kg,
foram colocados na água com a força de três
homens. Despedimo-nos e zarpamos, sob um forte sol, para a nossa
aventura. As primeiras 50 milhas, antes da divisa dos Estados
do Paraná e de São Paulo, seriam singradas por águas
interiores, em baías e canais, de modo que neste trajeto
inicial a remada seria mais fácil.
Atravessamos a Baía de Paranaguá até a Ilha
das Peças e fizemos o seu contorno oeste, parando em vilarejos
e outros pontos de interesse para fotografar e colher dados. Como
essa é uma região de mangue, sofremos muito com
as picadas de pernilongos, borrachudos, muriçocas, butucas
e os terríveis mosquitos-pólvora, mais conhecidos
como "porvinhas" pelos nativos. Usávamos repelente,
mas isso pouco adiantava frente ao apetite voraz dos mosquitos
do manguezal. O jeito era procurar se distrair com a beleza da
paisagem, a fauna e a flora. Durante esta parte do percurso, era
muito comum cruzar com botos. Alguns paravam ao lado dos caiaques
e, com a cabeça para fora da água, ficavam a nos
observar, curiosos. Outros, por vezes, seguiam-nos por algum tempo
e depois, desinteressados, retomavam o seu rumo.
Cara roxa e papo amarelo
Na pequenina Ilha do Pinheiro, no centro do Parque Nacional do
Superagüi, pudemos assistir, logo nos primeiros dias da viagem,
a um espetáculo da natureza. Caiçaras de uma vila
próxima haviam nos dito que muitos chauás (espécie
de papagaio seriamente ameaçada de extinção)
vêm à ilhota para passar a noite. Assim, logo que
armamos acampamento numa ilha vizinha, seguimos para a pequena
enseada da Ilha do Pinheiro e ali ficamos aguardando o entardecer.
O silêncio na mata era tão profundo que não
conseguíamos imaginar bandos de papagaios barulhentos por
ali. Entretanto, assim que o sol começou a baixar na linha
do horizonte, pontos negros começaram a surgir no céu,
por toda parte. E foram se aproximando, em bandos isolados, até
que pudemos identificar seu barulho, ao longe. Conforme chegavam
mais perto, suas cores, corpo verde e cara roxa, iam se tornando
mais nítidas.Em questão de minutos, o silêncio
na ilha era substituído por uma algazarra formidável
de centenas de chauás que chegavam de todo o lado. Alguns
faziam um vôo cuidadoso, de reconhecimento, ao redor de
nós e logo iam se juntar aos demais nas árvores
mais altas da floresta, cujos galhos já iam ficando lotados
de papagaios.
Os coqueiros, certamente por estarem cheios de coquinhos, eram
os mais disputados. Alguns casais, talvez querendo privacidade,
buscavam galhos mais afastados, e lá se encorujavam, naquele
namoro típico da espécie. Tão logo veio a
escuridão, entretanto, o estardalhaço cessou e o
silêncio voltou a reinar na Ilha do Pinheiro.
Vinte milhas adiante já estávamos em território
paulista, depois de passar pelo sinuoso e belíssimo Canal
do Varadouro, que passa pela face oeste da Ilha de Superagüi.
Neste trecho tivemos a oportunidade de avistar um jacaré-de-papo-amarelo,
espécie ameaçada de extinção e símbolo
do Projeto Caiman. Mas foram apenas poucos segundos, pois tão
logo ele percebeu nossa presença, precipitou-se nas águas
do canal, desaparecendo. O mesmo se deu com os outros três
ou quatro que avistamos no decorrer da viagem. Este medo do homem
é um indício de que, a despeito da fiscalização,
a caça ao jacaré-do-papo-amarelo continua.
Em mar aberto
A parada agora seria o Parque Estadual da Ilha do Cardoso. Na
vila do Marujá, conforme já havíamos planejado,
atravessamos os caiaques por terra, através de uma estreita
restinga, do canal para o mar aberto, o que, por razão
do peso excessivo, não foi tarefa fácil. Fizemos
isto para podermos passar pelas belas e desertas praias da Ilha
do Cardoso, todas de areia muito branca, cercadas por costões
e montanhas verdejantes. Ao invés de botos, comuns em águas
abrigadas, agora não raro cruzávamos com tartarugas-marinhas.
De longe já podíamos avistar seus grandes cascos
à flor da água, emergindo apenas a cabeça,
vez por outra, para respirar.
Entretanto, assim que pressentiam nossa aproximação,
mergulhavam assustadas, buscando refúgio nas profundezas.
Neste trecho pegamos a primeira tempestade no mar, que, além
do medo de raios z do mar revolto, não nos causou maiores
problemas. Nossos caiaques, por serem bastante compridos e bem
equilibrados, tornam-se bastante seguros, mesmo em mares agitados.
Mais seguros até, talvez, que embarcações
bem maiores.
O problema do caiaque oceânico é a rebentação,
como nas praias e barras, quando as ondas quebram, fazendo ele
"capotar" violentamente. Nessas ocasiões, o canoísta
tem que estar preparado para, mesmo submerso, livrar-se em poucos
segundos da saia de vedação que o prende ao cockpit
do caiaque, a fim de não se afogar. Pode parecer tarefa
simples, mas, dependendo do tamanho e tipo de rebentação,
o turbilhão de água criado pela onda quebrando dificulta
muito a movimentação do canoísta, principalmente
quando este está de ponta-cabeça.
Problemas
Tudo vinha correndo na mais perfeita paz: estávamos nos
saindo bem com a rebentação das praias, fazendo
boas fotos, conhecendo lugares incríveis e até um
pouco adiantados no cronograma do projeto. Foi então que,
numa noite na Ilha do Bom Abrigo, uma ilhota próxima à
Ilha do Cardoso, Priscila, a nossa fotógrafa, começou
a queixar-se de mal estar e muitas dores. Passou muito mal durante
a noite, vomitando sem parar e com fortes pontadas intestinais.
Como pela manhã ela estivesse pior ainda, muito pálida
e fraca, e não dando mostras de parar com os vômitos
e dores que, segundo ela, estavam cada vez piores, achamos prudente
parar com os primeiros-socorros e procurar um hospital.
Dois pescadores que passaram a noite na ilha também, muito
prestativos, se dispuseram a levá-la de lancha até
a cidade de Cananéia, que se situa somente a umas 7 ou
8 milhas a noroeste do Bom Abrigo. Eu fui com ela, para ajudar
com o que fosse preciso. Em menos de duas horas já estávamos
no pronto-socorro da cidade. Os médicos diagnosticaram
uma forte infecção intestinal, mas que, com alguma
medicação, em breve estaria sob controle, sem riscos.
Como ela teria que passar o resto do dia internada, com soro na
veia, tratei de procurar um barco que pudesse me dar uma carona
de volta à ilha, a fim de me reencontrar com os demais,
para remarmos até Cananéia.
Mas só consegui um barco para a manhã seguinte.
Então passei um rádio para uma baleeira (tipo de
embarcação grande, engajada na pesca) que se encontrava
nas imediações do Bom Abrigo, à qual pedi
que fizesse a gentileza de dar o recado a meus companheiros, dizendo
que estava tudo bem e que me esperassem lá por mais uma
noite. Imaginando que agora tudo estava bem, providenciei um quarto
de hotel próximo ao pronto-socorro para que pudéssemos
passar a noite. Priscila teve alta à tardinha e, bastante
fraca, ficou convalescendo na cama do hotel.
Perigo na Barra
Para a minha surpresa, à noite meus companheiros apareceram
no hotel, assustados. Eles explicaram: logo depois que eu saíra
da ilha, eles desarmaram o acampamento e, rebocando dois caiaques
(o meu e o da Priscila), partiram remando atrás de nós.
Assim, naturalmente não receberam o meu recado. Percorreram
as primeiras 4 milhas em mar aberto sem problemas. Quando chegaram
à Barra de Cananéia, onde entrariam no canal que
leva até a cidade, foram pegos por uma forte rebentação,
longe da costa. As barras, locais onde as águas dos canais
se unem às do mar, geralmente são muito perigosas
para a navegação, pois fazem grandes ondas quebrarem
em sua embocadura.
Neste dia o vento leste estava especialmente forte, fazendo essas
ondas ficarem ainda maiores, capotando os caiaques. Os mosquetões
que prendiam os caiaques aos reboques, com resistência para
1 tonelada cada um, estouraram com a força das águas,
como se fossem feitos de isopor.' Como tudo aconteceu muito de
repente, nenhum de meus companheiros estava de salva-vidas, dificultando
ainda mais a situação.
Também não conseguiam subir novamente nos caiaques,
pois estes já estavam cheios de água e a rebentação
não facilitava a operação. Tentaram soltar
um sinalizador de resgate, mas este não funcionou, porque
já estava encharcado. Ficaram então agarrados aos
caiaques quase submersos, tentando voltar para dentro deles. Lentamente,
as próprias ondas foram levando-os para fora da área
mais crítica. Num intervalo entre os vagalhões,
ajudando-se uns aos outros, eles conseguiram entrar em seus caiaques
e rapidamente remar para fora da barra, até uma praia deserta
na Ilha do Cardoso, chamada Itacuruçá. Somente então
puderam respirar aliviados. Mas o prejuízo fora grande:
meu caiaque e o da Priscila foram perdidos, com todo o material
de seus bagageiros, inclusive o caro equipamento fotográfico.
Os três caiaques restantes estavam também bastante
avariados, com rachaduras no casco e lemes quebrados.
Cerca de meia hora depois, sentados na praia tentando avaliar
os danos no que sobrou, mas ainda agradecendo por estarem vivos,
meus companheiros puderam distinguir um barco ao longe, navegando
próximo à rebentação da barra. Soltaram
mais um sinalizador - este funcionou - que foi imediatamente visto
pela embarcação, pois esta desviou prontamente o
rumo em sua direção. Quando ela chegou à
praia, eles não podiam acreditar na sorte que tiveram:
o barco havia encontrado os dois caiaques perdidos e vinha rebocando-os!
O barqueiro explicou então que seguindo uns seis quilômetros
pela praia eles chegariam à sede do Parque Estadual da
Ilha do Cardoso. Os três puxaram então os caiaques
até um local seguro e caminharam pela praia até
a sede, de onde pegaram carona com um barco até Cananéia.
No dia seguinte, eu e Patrice retornamos de barco até a
Ilha do Cardoso.
Improvisamos reparos para os caiaques e, remando os nossos, rebocamos
os demais até Cananéia, sem maiores problemas, a
não ser a tempestade que enfrentamos no meio da Baía
do Trapandé e encalhes em baixios. Parte do material fotográfico
estragara por causa da água salgada, alguns pertences foram
perdidos, mas, afinal, o saldo do acidente não era tão
negativo assim. Além disso, Priscila já estava bem
melhor. Consertamos os caiaques e em dois dias estávamos
prontos para seguir viagem.
Tendinite
Agora novamente singrávamos águas abrigadas, pelo
chamado Mar Pequeno. A paisagem era deslumbrante: à nossa
esquerda estava a Serra do Mar, verdejante, e à nossa direita
estava a lha Comprida, cuja maior parte de sua área é
destinada à preservação ambiental. A fauna
no canal fervilhava em aves, lontras, botos e peixes, distraindo-nos
durante a remada. Trinta milhas adiante, chegamos à histórica
cidade de Iguape, o porto mais importante do Brasil à época
do Ciclo do Ouro. Nesse último trecho, Priscila, talvez
por ainda estar um pouco fraca pela infecção, começou
a queixar-se de dores no seu braço esquerdo. No final já
não conseguia mais remar e teve que ser rebocada.
Em Iguape fez uma consulta a um médico e o diagnóstico
confirmou o que já suspeitávamos: tendinite aguda.
Teve que engessar o braço, o que significava o fim de viagem
para ela. Entristecida, a nossa fotógrafa despediu-se de
nós e embarcou num ônibus de volta para Curitiba.
Ficamos então dez dias presos em Iguape, tempo que levou
para providenciarmos outro fotógrafo que se dispusesse
a acompanhar-nos até Santos. Este era João Pedro
Soares, que nunca havia entrado num caiaque em sua vida, mas,
fisicamente bem preparado por ser triatleta, chegou disposto a
não decepcionar.
A Juréia
ficamos por alguns dias, percorrendo trilhas e remando pelos
rios da estação ecológica, fotografando as
belezas naturais da região. A Juréia, segundo alguns
Zarpamos de Iguape e, em dois dias, chegamos à Juréia.
Munidos de uma autorização previamente solicitada
para entrarmos mesmo nas áreas de acesso mais restrito,
lá pesquisadores, é a área de maior biodiversidade
do planeta, o que suspeitamos ser verdade pela quantidade absurda
de animais e plantas diferentes que lá vimos.
Certa noite, uma onça rodeou o alojamento de pesquisa
em que dormimos, como pudemos verificar pelas enormes pegadas
que encontramos na manhã seguinte, com auxílio de
um guarda-parque. Alguns moradores locais avisaram-nos para não
sairmos dos caiaques naquela região enquanto estivéssemos
remando, pois, segundo eles, haviam muitos tubarões. Acreditando
ser tolice daquela gente simples, não demos muito crédito
ao conselho. Até que, numa determinada manhã, quando
contornávamos a Ponta da Juréia, eu resolvi pular
na água para aliviar o calor. Poucos minutos depois, senti
algo passando pelo meu pé.
Acreditando não ser nada além de um peixe curioso,
não me preocupei até sentir novamente aquele corpo
frio cutucando meu pé. Lembrando do que disseram os pescadores,
subi o mais rápido que pude no caiaque, atento ao meu redor.
Meus companheiros já estavam até rindo do meu susto,
quando surgiu entre os caiaques uma barbatana deslizando à
tona da água. Pudemos ver então, sob aquela barbatana,
a silhueta de um pequeno tubarão-martelo, de pouco mais
de um metro de comprimento, o suficiente para nunca mais entrarmos
na água sem um bom motivo. Evidentemente que o tubarão
não queria me atacar - era, realmente, um peixe curioso
- mas o susto foi grande.
Aliás, depois deste episódio, ainda avistamos tubarões
por diversas vezes, enquanto contornávamos a estação
ecológica. No último trecho da Juréia, mais
precisamente no povoado de Guaraú, Wagner e Diogo resolveram
abandonar a expedição. Por razão do atraso
em Iguape, ambos tinham que retornar a Curitiba por conta de seus
compromissos com emprego, faculdade, etc. Já estávamos
com trinta e oito dias de viagem e agora só restávamos
eu, Patrice e João Pedro, o novo fotógrafo.
Perdido no mar
Zarpamos de Guaraú com destino a Itanhaém, cerca
de dezessete milhas adiante, na quarta-feira de cinzas, sob um
descomunal vento sueste. Entretanto, como Guaraú localiza-se
dentro de uma grande enseada, tivemos a falsa impressão
de que o fortíssimo vento não tornara o oceano tão
revolto. Somente quando chegamos ao mar aberto propriamente dito
é que percebemos que aquele seria o pior mar que já
enfrentáramos. O vento levantava gigantescos vagalhões
atrás de nós, obrigando-nos a ziguezaguear entre
eles a fim de não sermos tombados.
O repaxo da água arrastava-nos com muita força,
para qualquer lado, tornando muito difícil a tarefa de
manter o rumo certo. Também era impossível permanecermos
juntos. Poucas horas depois o vento intensificou-se ainda mais,
fazendo com que as marolas também aumentassem. Algumas
chegavam a dezoito ou dezenove pés de altura, o equivalente
a mais ou menos seis metros, jogando os caiaques para cima e para
baixo com uma velocidade alucinante. Logo surgiram os temíveis
"carneiros", que são ondas que, de tão
grandes, chegam a uma inclinação muito aguda, começando
a estourar em pleno mar aberto. Enfim, a situação
estava péssima quando João Pedro, que vinha mantendo-se
uns cem metros atrás de mim, simplesmente desapareceu.
Não havia mais sinal nem dele, nem de seu caiaque. Consegui,
a muito custo, me aproximar de Patrice e soltar um sinalizador.
Ficamos aguardando alguma resposta dele, que não veio.
Permanecemos nessa situação, eu e Patrice, à
deriva por uma hora e meia, a três milhas da costa, na esperança
de que ele aparecesse. Conseguimos então passar um rádio
para o Corpo de Bombeiros de Peruíbe, que informou-nos
que não havia registro de nenhuma ocorrência. Também
disseram-nos que absolutamente nenhum barco havia saído
para o mar naquele dia, nem mesmo os experientes barcos de pesca,
pois aquele vento sudeste era muito perigoso. Enfim, sem nenhum
sinal de João, nós estávamos de caiaque,
sozinhos naquele mar revolto, a três milhas da costa.
Resolvemos então mudar o rumo para Peruíbe, a cidade
mais próxima, onde poderíamos contratar um helicóptero
para procurar nosso companheiro desaparecido. Além do mais,
já começava a anoitecer. Chegamos em Peruíbe
capotados pela grande rebentação, mas sem maiores
problemas. Percorremos então uns quinze quilômetros
de praia, procurando algum sinal de nosso companheiro, sem sucesso.
Lá pelas onze horas da noite chegamos ao Posto do Corpo
de Bombeiros, onde explicamos a situação e pedimos
ajuda. Infelizmente, os barcos de resgate só poderiam sair
pela manhã. Passamos então a noite inteira no rádio
entrando em contato com todos os postos salva-vidas da região
e pescadores das redondezas, mas ninguém tinha noticia
de João Pedro. Com as equipes de resgate no dia seguinte
a situação não melhorou.
O mar continuava agitado, dificultando a ação dos
bombeiros. Um avião particular sobrevoou toda a região
também, mas em vão. À tardinha, quando já
pensávamos em telefonar para os familiares de João
e avisar do incidente, chegou um rádio de Itanhaém,
o município vizinho. Um relatório de um salva-vidas
informava que uma embarcação virara na rebentação,
com um só tripulante, mas que tudo estava bem. A informação
era vaga, mas trazia uma ponta de esperança. Nos dirigimos
imediatamente ao local da ocorrência, vinte quilômetros
adiante de onde havíamos aportado no dia anterior, e, para
o nosso grande alívio, lá estava João. Ao
contrário do que imaginávamos, ele estava bem, para
uma pessoa que se perde no mar e é encontrada mais de vinte
e quatro horas depois. Explicou-nos que no dia anterior em que
o perdemos de vista, por causa das grandes ondas e, quando estava
nos procurando, foi apanhado por uma forte correnteza que o arrastou
para mar aberto. Mas estava tranqüilo, só precisava
de uma boa noite de sono.
A chegada
A partir daí, redobramos o cuidado no sentido de não
afastar-nos uns dos outros mais. Em Mongaguá, vinte milhas
adiante, sofremos com a forte rebentação, que acabou
quebrando um de nossos remos e rachando o casco de meu caiaque
em quatro lugares. Felizmente tínhamos ainda um remo reserva
e eu consegui improvisar reparos com fibra para as fissuras no
meu casco. Os reparos não eram ótimos, mas eu acreditava
que eles agüentariam até o final da viagem. Com corrente
e vento contrários, percorremos as últimas vinte
e três milhas que nos separavam de Santos. Passamos por
Praia Grande e São Vicente, reservando a última
noite para acamparmos na pequena mas belíssima reserva
do recentemente criado Parque Estadual Japuí-Xixová,
já às margens da Baía de Santos.
Quando finalmente chegamos em águas santistas, era impressionante
o contraste de proporções entre os nossos caiaques
e os imensos navios que adentravam o canal com destino ao porto.
Tomando extremo cuidado para não sermos "atropelados",
remamos por entre gigantescas embarcações até
costearmos a praia de Santos. Depois de quarenta e quatro dias
passando somente por regiões de mata e de conservação
ambiental, era estranho ver toda aquela orla com grandes prédios
e automóveis, além da poluição do
ar e da água. Mas ali terminava o Projeto Caiman, nossa
grande aventura.
Equipe Caiman: Fábio Grade, Nando Rossi, Patrice Andrade,
Priscila Forone
e Wagner Cardoso
Travessia: Paranaguá (PR) - Santos (SP)
Percurso: 210 milhas náuticas
Imagens: Fotógrafa Priscila Forone
Diário: Fábio Grade